segunda-feira, 8 de março de 2010

Continho

"Eu nunca dirigi uma carroça, moço". Mas, mesmo assim, não tinha jeito. O que havia ali era uma donzela ferida no meio da plantação de cana precisando ser levado ao Posto Médico e seu pai, o moço a que me referi, não tinha coordenação motora pra controlar qualquer coisa. E a gente ficou ali numa troca de olhares e a pressão sobre mim aumentando, o sangue da moça escorrendo e eu não sabia controlar a tal da carroça. Eu sempre soube que isso de passar as férias no interior não daria certo.

E nada funcionava naquele lugar. Não havia celular pra ligar pra uma ambulância vir buscá-la (por mais que demorasse, seria mais rápido que eu dirigindo uma carroça) e o poste telefônico tombara há duas semanas e ninguém foi fazer a manutenção. E o velho olhava pra mim, até que gritou "Ah, seu imbecil, minha filha tá morrendo,tá perdendo sangue" e foi aí que, não sei como,meu espírito de herói falou mais alto e como se fosse a coisa mais fácil do mundo, subi na carroça e fui, controlando sem nenhuma dificuldade. O Posto Médico ficava a 30 km dali. Eu estava indo o mais rápido que podia, dando o meu melhor para salvar a pobre moça, que havia cortado sua perna com o facão que usava para remover a cana. E eu sentia como se não fosse eu ali, a velocidade dos cavalos refletia-se nas batidas incessantes e ferozes de meu coração, era como se eu e aqueles cavalos e aquela carroça fôssemos um só, tudo em perfeita harmonia.

4 Km, 6 Km, 9 Km, 13 Km, 16 Km, 17 Km,parei. Eu já não conseguia saber qual era o caminho e perguntei à moça, que era moradora da região, portanto boa conhecedora do local mas ela já estava inconsciente fazia tempo e só soltava uns grunhidos de dor e aparente confusão mental. Era o fim, pra ela. Mas não, o herói não pode desistir da mocinha assim, e retomei nas minhas mãos as rédeas da carroça e fui.

16 Km,15 Km,parei. Eu acabara de perceber que já havia passado por ali e não havia ninguém que pudesse me dizer por onde ir e o suor escorria em largas doses, como numa avalanche, enchente em túnel, essas coisas e eu comecei a chorar em desespero. "Porra, por que eu tenho que ser respnsável pela morte dela?! Como?! Por que eu, seu Deus ingrato, filho-da-puta?!" E caía a chorar desesperadamente, ela provavelmente já estaria morta a esssa hora, pela quantidade de sangue que havia perdido. Eu estava enlouquecendo...e aquele sol, aquelas MOSCAS! Moscas demoníacas, satânicas, desgraçadas, começavam a circular em volta da enorme ferida da mulher. "Por que não fizemos um curativo rápido?" pensei, mas aí lembrei que a casa ficava a uma enorme distância, seria mais tempo perdido, caso tentássemos. E eu via o tecido morto se formando na região machucada e as moscas e o calor e o suor e o desespero e a loucura.

Pocotó, pocotó, pocotó, pocotó, saí com a carroça em qualquer direção e com toda a velocidade possível, eis que chega uma hora em que eu retomo a consciência e lembro, subitamente, que eu não sei dirigir carroça e que eu nem sequer conhecia aquela moça ou o pai dela. Como eu havia ido parar ali? Que férias foram essas que eu tirei?

Então, desci da carroça, observando a moça, que até era bonita, se não fossem as expressões sofridas de quem trabalha na lavoura. E aí saí correndo o mais rápido possível, com os olhos fechados, imaginando que em algum momento fosse aparecer uma árvore pra que eu batesse e ficasse inconsciente. Era o melhor a se fazer, sem dúvida. Corre, corre, corre, corre, corre, corre, pernas doem, falta-de-ar,parei. E ao parar, comecei a ouvir o barulho de água, como se fosse uma cachoeira imensa. E vou correndo em direção ao barulho da água, correndo incessantemente e ouço a água se aproximando, se aproximando, ficando bem próxima, bem próxima, até que acho a cachoeira gigante e ainda nauseado da corrida, fico fascinado em estar na foz de uma enorme cachoeira, onde havia um despenhadeiro.

Eu lembro que sentia muita sede, muita sede e fui correndo como louco em direção à agua e mesmo pegando-a em minhas mãos, elas continuavam secas e intactas. Secas, intactas, secas, intactas, secas. E um ódio dum animal ferocíssimo me sobe o corpo, o calor absurdo me corroendo os sentidos e a razão e eis que grito "AAAAAAAAAAAAAAAAAA" e saio correndo em direção ao penhasco e correndo e correndo e me aproximando...

E então pulo! "AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA", caindo, meus braços girando freneticamente, vou morrer, amém, era tudo o que eu precisava, finalmente a paz.

Aí vejo meus pais me segurando, um de cada lado, gritando:
_Filho, filho, acorda, é só um pesadelo, é só um pesadelo!

E eu, molhado de suor, me percebo em casa, seguro, em minha cama, com meus pijamas ainda infantis. Abraço meus pais e choro de alegria, agradecendo a eles por estar ali, vivo, são e salvo.

Quando eu tive esse sonho, eu tinha 14 anos. A parte em que agradeci por estar vivo era verdade, só que nunca mais fui são e nunca mais estive a salvo de ter terríveis pesadelos. De tantos pesadelos que tenho, eles quase já fazem parte da minha realidade. Eu nunca mais fui o mesmo...nunca mais.

4 comentários:

Bárbara Reis disse...

Eu gostei,muito. Tem um ritmo incrível,dá pra se sentir o que a personagem está vivendo.

Táxi Pluvioso disse...

São poucos os sonhos de que me lembro. Bom texto. bom domingo

Táxi Pluvioso disse...

Concertos downloadáveis.

Mel. disse...

"De tantos pesadelos que tenho, eles quase já fazem parte da minha realidade."

Gostei muito do trecho, especialmente da frase acima... Como se já não fosse possível estabeler essa "linha" divisória imaginária entre sonho/realidade. "O que é realidade?" ou "Quando estamos de fato sonhando?"

enfim!
:)