segunda-feira, 27 de julho de 2009

Poeta(s) gonçalense(s)

Eu perco a delicadeza do toque,o possível sussurro,na falta de tempo para se observar o belo.Porque um escritor que passa toda sua vida mais observando puro concreto,coisas feias e pessoas fúteis não deve se inspirar muito.É essa calma que me falta.Essa vida burguesa de Leme-Gávea-Humaitá,que eu não vivi.É isso que eu estou perdendo.Falta-me a capacidade de expressar o belo,o bom,o bonito,o gostoso.Porque para expressar somente as agruras humanas,bastava que eu fosse um documentarista.Já não me dói constatar isso:o fato de ter nascido do outro lado da ponte,não em berço de ouro,nem de prata,nem de cobre mas de pura madeira,improvisada,acidental.A vida por aqui é um conjunto de tristes acidentes,a gente vive tropeçando sem saber por quê.Nossas vidas são duras,sim,agora eu sei que,de fato,são duras.Claro,há coisas piores,muito piores,mas como transformar em poesia o que eu vejo todo dia?Tá bom,vou transformar a pobreza de ideias em poesia.A falta de conversas interessantes,a falta de belezas da minha cidade.Isso é muito mais difícil do que transformar a praia em poesia.Do que transformar o Morro Dois Irmãos em poesia(como vários já fizeram).Caso queiramos ser poetas e poetisas aqui,temos uma missão muito mais difícil,que exige experiência de longa data.Além disso,para almejarmos uma posição mais confortável na sociedade,ter uma situação financeira estável,precisaremos de enorme esforço,precisaremos estudar mais do que alguém Leme-Gávea-Humaitá precisará(e,mesmo assim,corre-se o risco de não aprender tanto quanto).Isso tudo causa um desgaste enorme,e aí,nem sempre sobra tempo para divagações,ócio criativo,idas ao teatro e também não há locadoras com filmes de muita qualidade por perto,enfim.É um emaranhado de coisas que vejo me(ou,nos) empurrar à literatura marginal.

2 comentários:

Báah - Thoughtless disse...

Por isso eu acho que o Descartes poderia ter sido melhor.Ele acordava e dormia pensando em filosofia e no entanto,existem rombos de médio porte na filosofia dele.Sim, talvez a qualidade dos nossos textos fosse melhor se nós tivessemos mais tempo livre,ou a possibilidade de fazer mais viagens ou de ir ao teatro constantemente. Talvez,se nós pudéssemos ir ao Louvre e visitar as St.Patrick's Church ao redor do mundo. De repente,se eu conhecesse a basílica de Santa Sophia eu tivesse mais inspiração...
Mas pensando melhor,se eu conhecesse tudo isso, eu seria menos Bárbara e mais outra pessoa,eu perderia a minha essência e isso talvez seja mais triste.

Mel. disse...

Poetas gonçalenses: uni-vos!