domingo, 2 de agosto de 2009

"Você Pode Ir na Janela"

Eu nunca lembro com amargura das coisas duras.Mas tudo insiste em me agredir,acho que estou me tornando uma pessoa triste,as coisas começam a dar muito errado.Já não faz sol há duas semanas,as pessoas me ignoram,meu carro tá velho e eu estou triste.Eu fui consertar a lâmpada da entrada da garagem ontem e tomei um choque que me deixou desmaiado por meia-hora.No dia seguinte,uns pivetes que passaram na rua jogaram pedra na lâmpada e quebraram-na,destruíndo todo o meu trabalho.Além disso,um dos meus parceiros que era também desenvolvedor em um novo projeto da empresa roubou minha ideia e conseguiu a promoção que eu espero há 2 anos.Também descobri que minha mãe trai o meu pai desde que...desde que...eu me entendo por gente,eu acho.Faz muito tempo mesmo.Pelo que eu vi,eu era pré-adolescente quando tudo começou.Ela só esperou dar tempo pra que eu crescesse o bastante pra ficar em casa sozinho e inventou as desculpas do plantão no serviço,que duraram por quase vinte anos.Com isso,meu pai mora comigo agora e isso diminui minha privacidade,minha liberdade e minha criatividade apesar de amar meu pai(e muito,por sinal).Eu já não sei me adaptar às coisas.Apesar de ter 29 anos,me sinto um velho antiquado e agora,além disso,triste.Antes aconteciam coisas ruins comigo mas como eu nunca dava bola,elas passavam como...como um carro passa,quando você tá no ponto-de-ônibus.Não faziam a menor diferença pra mim,mas de uns tempos pra cá,eu comecei a notar as coisas.Eu estou ficando velho e sensível,antes de todo mundo.O que é péssimo nesse meu universo de agressividade,empreendedorismo e disputa corporativa acentuada.Vejo minha condição exacerbar-se com mãos atadas e cansaço.Muito cansaço mesmo.Pra acabar com isso,resolvi aproveitar minhas férias de meio de ano(1 semana)pra ir com o meu pai pro sítio da minha tia,nem lembrei de chamar minha mãe,que sempre ia com a gente,mas resumindo:foi maravilhoso.Foi a melhor coisa que eu podia ter feito para relaxar.O contato com a terra,com as árvores,com os animais e com a minha tia também(sempre muito preocupada mas de um coração lindo que dá dó).Mesmo assim,quando voltei à cidade,àquela rotina cruel,parecia que nada tinha acontecido.Parecia que eu havia passado uma semana em casa,sem fazer nada.Eu conversava sobre isso com os meus amigos,eles mudavam de assunto,diziam que eu tava ficando chato.E tava mesmo.Eu conversei com meu pai e quando o fiz me perguntei:"Por que não falei com ele antes?".Foi ótimo ter conversado com ele.Foi bonito,esclarecedor,sincero e nos aproximou bastante.Mais do que antes,pelo menos.Mesmo com tudo isso,eu era tomado por uma apatia sem igual,meu rendimento no trabalho caiu,meu chefe me chamou pra conversar e disse que eu devia ir a um psiquiatra,psicólogo,alguma coisa assim.E também alguns "amigos" se afastaram.Eu percebi em pouco tempo,que só conversava com os faxineiros do meu serviço(sobre futebol e essas coisas),com meu pai em casa e com minha mãe pelo telefone.Eu que sempre fui popular,ao invés de tentar mudar a situação,fiquei com vergonha daquilo,fui ficando cada vez mais caseiro e tive o diagnóstico de Depressão,quando fui ao psiquiatra.Só que meu chefe não poderia saber,eu teria algum prejuízo,na certa.Pra disfarçar do pessoal no emprego,não podia levar os remédios de tarja preta e,com isso,minha condição foi se agravando.No penúltimo dia,eu estava no hospital,pois não estava me alimentando corretamente.Aliás,eu (quase) não estava me alimentando.Era um dia bonito,os pássaros cantavam,meu pai estava animado pois havia ido no Karaokê com velhos amigos e tirou 100 em duas músicas,na noite anterior.Era véspera do meu aniversário e minha mãe já havia me ligado,contando todos os planos.Eu só concordava,escroto que sou,que fui.Às 21h30 dessa Quinta-feira,fui sentar na janela do prédio,que dava pra rua.Como sempre,eu era invisível,nenhum transeunte via o maluco que se jogaria do prédio em 20 minutos,mais ou menos.Às 21h51,eu já estava fora de mim.

3 comentários:

M. A. disse...

Gostei do fim.

Mel. disse...

"Você pode ir na janela/Pra se amorenar do sol/Que não quer anoiter"

Grande banda e grande texto!

Bárbara Reis disse...

Eu gostei. Me lembrou "A Tabacaria".